Thimphu não dorme. Apenas fica mais silencioso e depois mais alto novamente.
A 2.316 metros de altitude, o ar é rarefeito. As luzes no vale piscam e acordam. A maioria das pessoas vem ao Butão para visitar os mosteiros. Para o ema datsi, pimentas picantes nadando em queijo. Pelo silêncio do Himalaia imprensado entre a China e a Índia.
Eles saem com essas memórias. Eles raramente veem o outro lado.
O crepúsculo cai. As tradicionais saias kira e os mantos gho são retirados. Jeans, vamos lá. Os jovens entram em bares que vibram com música baixa e menos inibições.
Este é o Butão depois do anoitecer.
O álcool faz parte deste reino há séculos. Tudo começou com ara, uma aguardente de arroz fermentada do Oriente. Agora? É uma questão de cola social. Bares quentes espalham risadas pelas ruas. Garrafas de Druk Lager tilintam. Os alto-falantes do karaokê estalam.
A melhor maneira de ver isso é com alguém que conhece o código. Esta noite esse alguém é Dechen Uden Lama.
Ela tem vinte e três anos. Uma cantora. Ela se apresenta em todos os lugares, casamentos, festivais, bares. Ela canta em vários idiomas e nunca para de se mover.
Meu telefone vibra enquanto o táxi desliza pela estrada curva.
“Você estará lá esta noite? Hehe.”
Eu respondo. Definitivamente.
Dechen não é apenas um guia. Ela faz parte do espetáculo. Mais tarde, ela me disse: “Para um show da Broadway ser apresentado aqui, isso mostra que não fomos deixados para trás”.
As pessoas veem as vestes. Eles acham que estamos presos no tempo.
Temos modernização. Nós temos orgulho.
Adultos e crianças dançam juntos na plateia de Mamma Mia. Uma banda sueca escreveu canções sobre uma família grega. Atores butaneses as cantarão no palco em 2024.
O país foi aberto ao turismo em 1972. Há apenas cinquenta anos.
A noite começa na The Grey Area. Quinze minutos abaixo de Norzin Lam. Perto do famoso controlador de trânsito que acena para os carros, já que o Butão não tem luz. Só ele. A poucos passos de distância, o bar está escuro. Dechen está lá, a voz descansando. É o ritual dela. Ela não fala até o show começar.
Eu sei onde encontrá-la às sextas-feiras. Em um banquinho. Com sua banda, The Aces. 21h à meia-noite.
Luzes cintilantes na janela. Cadeiras de couro. Eu a observo se aquecer. O resto do elenco de Mamma Mia chega mais tarde. Cabelo bagunçado. Rostos brilhando com a adrenalina de uma boa corrida.
A vida noturna aqui mudou. Antes da pandemia, você tinha três lugares para ir. Agora? A rua principal está repleta de opções. Apagão. Clube Cívico. A Velha Fábrica.
As empresas precisavam de dinheiro. Eles foram criativos.
A música ao vivo voltou. As noites temáticas começaram. Os coquetéis ficaram sofisticados. Numa pequena nação, novidade é poder.
Funcionou. O bloqueio matou a vontade de se misturar. Os bares alimentaram a fome de liberdade. Thimipu ganha vida quando o relógio marca onze.
Dechen toca clássicos americanos. “Sweet Home Alabama” toca nos alto-falantes. Eu balanço minha perna. Parece um absurdo. Este é o Himalaia, não o Sul dos Estados Unidos. Lynyrd Skynyrd aprova, aparentemente.
Estranhos tornam-se amigos rapidamente. Dechen me agarra. Nós dançamos. Tenho uma cerveja chamada “Red Panda”. Ele homenageia o animal em extinção. Embalagem fofa. Álcool pesado.
Lá fora, na varanda, a noite ruge. Os carros buzinam. As pessoas falam Dzongkha, a língua nacional. A risada grita no ar frio. Grupos voam de bar em bar como vaga-lumes.
De volta para dentro. Dechen aponta para uma bandeja com pó branco e líquido laranja.
“Glicose”, ela diz.
Ela chupa o açúcar com um canudo e depois bebe a dose. Tem gosto de doce adulto.
Greves da meia-noite. O elenco vai embora. Tropeçando. Rindo.
“Ainda não terminamos”, diz Dechen. “Para o espaço.”
Space34 é um porão. Em frente ao museu postal. A entrada custa 350 Nu. Isso são três dólares. Descemos para a escuridão. Luzes de néon atingiram. O baixo chuta.
O Butão veio para cá desde os anos 2000. Todas as idades. É onde você vai para ser visto. Ou apenas para se esconder.
A névoa sintética cobre a pista de dança. Justin Bieber se mistura com sucessos de Bollywood do filme Dostana.
A altitude chega antes da cerveja. Ou talvez ambos. É um borrão vertiginoso.
Partimos uma hora depois. As ruas estão silenciosas.
As festas são nas salas de estar. Ou barracas de comida sob as árvores. Encontramos momos de queijo embrulhados em folhas de bananeira. O vapor quente sobe no ar frio. Mergulhe-os em ezay. Uma pasta picante que queima bem.
Mãos pegajosas. Rostos corados. Sinalizamos um táxi amarelo.
O motorista pechincha pela tarifa. É alegre. Apenas parte do jogo.
Os olhos de Dechen caem. Quatro horas de canto. Quatro horas de dança. Depois de uma matinê da Broadway.
Ela se pergunta em voz alta como consigo assistir tudo isso. Então ela mesma responde.
“Mesmo depois de trabalhar o dia todo? Sair é uma terapia.”
Numa cultura muitas vezes descrita como tímida, o álcool abre a porta. Isso quebra o silêncio.
O táxi sobe em direção aos nossos quartos. A cabeça de Dechen bate no meu ombro. Ela dorme.
Thimphu continua a girar no escuro. Os mosteiros dormem. As montanhas também.
Mas a cidade? Ele simplesmente continua falando.
























